Como viajar a América do Sul com pouco dinheiro

Data: 22 junho, 2017

Categoria: Mochilão

Pantanal – Bolívia – Chile – Argentina – Uruguai – Florianópolis com 800 reais no bolso

No banheiro do ônibus entre São Paulo e Corumbá eu contei quanto eu ainda tinha de dinheiro para percorrer todo o trajeto que eu, cuidadosamente, havia estudado durante semanas. Já tinha separado toda a grana em Sp conforme sempre faço em viagens: nunca levo notas maiores que 50 reais e nesse caso ainda tinha 8 maços de 100 reais, tudo em nota de 20 reais.

Nessa hora me dei conta que a empreitada não ia ser fácil, ainda tinha mais 4 países para passar e semanas pela frente, mas vamos em frente, quanto pior, melhor.

Fiquei 2 dias em Corumbá e pude navegar no rio Paraguai em um barquinho de alumínio, foram 48 horas conhecendo um lugar que sempre quis conhecer, o povo hospitaleiro, os amigos feitos no hostel, a comida, o calor, as paisagens, etc.

O passeio de barco foi feito com outros 2 amigos feitos no hostel e que estavam passando pelo porto nessa mesma hora, negociamos e ficou 10 reais para cada um, 60 minutos navegando pelo rio até a divisa com a Bolívia. Ver pessoalmente a travessia do gado pelo rio foi demais, definitivamente algo que só acontece ali no Pantanal. Depois sentamos para tomar uma boa cerveja e comer um churrasco que acabou saindo de graça.

Passeio no rio paraguai

Na Bolívia foi uma relação de amor e ódio. Provavelmente nunca esquecerei algumas paisagens que eu vi, como o céu mais estrelado do mundo, os gêiseres, o salar e muitas outras paisagens que passei, porém, jamais esquecerei dos ônibus precários, das vezes que fui enganado, das rotas bloqueadas e de todos os outros problemas que fazem parte do cotidiano de um país pobre como a Bolívia.

Percorrendo o Salar e o deserto do Atacama

Quando deixei a Bolívia, dei graças a Deus, mas poucos dias depois, já estava sentindo falta dos dias que passei no deserto, foram 3 dias percorrendo os 800 KM entre o Salar de Uyuni e o deserto do Atacama na divisa com o Chile. Seguimos em um jeep toyota, eu, 2 francesas, 2 suecos e 1 australiano. A comunicação com os Europeus não foi da mais precisa, eles ficavam conversando em Francês e um pouco de Inglês comigo e com o Australiano. Como eu e o cara não entendíamos francês, ficávamos boiando na conversa dos 4 e isso no terceiro dia começou a me deixar meio louco, faziam uns 12 dias que eu não conversava em Português e aquele monte de francês falando ao meu lado por 72 horas, e o pior, meu mp3 deu pau e a partir daqui é sem música mesmo.

Atolado no Atacama

Atravessando o Atacama

Na ultima noite acordei no meio da madrugada com a cabeça explodindo de dor e um frio desgraçado, passei as ultimas horas da madrugada, sentado, tentando ler para passar o tempo e esperar o café da manhã para tomar o chá de coca, que cura qualquer mal que você possa sentir em alta altitude. Até o momento não tinha tomado o chá ainda, fiquei surpreso com a velocidade que resolveu o problema.

Na divisa com o Chile, atravessei a pé para o Chile sentido San Pedro do Atacama, contemplei a paisagem e decidi voltar para a Bolívia, meu objetivo no Chile, seguindo o planejamento original, era conhecer San Pedro do Atacama, porém, o melhor eu já tinha visto, que era o deserto em si, ir para lá com tão pouco dinheiro, seria sacrificar paisagens que eu ainda não tinha visto.

Acima dos 5.000 metros

Na fronteira troquei de jeep e voltamos eu, um turco, o australiano e um casal de Canadenses, gente finíssima. Engraçado como a relação humana nesses lugares tão isolados é tão intensa, parece que estar ali, no meio do deserto, passando frio, comendo sentado no chão de areia, vendo as mesmas paisagens incrivelmente absurdas, te torna mais brother que uma pessoa que você vê todo dia no seu trabalho ou treino. Fiquei em Uyuni mais 2 dias, tomei banho finalmente, depois de 3 dias no deserto, e parti em destino a Cuzco, passando por La Paz.

Caminho para o Peru bloqueado

Chegando em La Paz encontro um russo que tinha viajado comigo no trem entre Quijaro e Santa Cruz e ele estava tentando viajar para Cuzco há 2 dias, os índios tinham bloqueado a estrada devido ao Dia do barco, que tinha sido 1 dia antes. Tentei comprar minha passagem e não tinha como, me disseram que poderia tentar ir para Copacabana e de lá seguir para Cuzco, mas que também estava bloqueado. Passei a madrugada na rodoviária com o termômetro mostrando 0 graus, um frio dos diabos, e de nada adiantou, no dia seguinte, ainda estava bloqueado, era hora de seguir para o Sul, La Paz foi o máximo que deu para subir.

Em La Paz mesmo, comprei 1 passagem para Villazon e de lá atravessaria a fronteira com a Argentina. Essa parte da viagem foi tão fria que o suor no vidro do Ônibus congelava, e junto com ele, meus ossos, órgãos e até a alma, acredito que nunca senti e nunca sentirei um frio tão desesperador. Como desejei as águas quentes de Florianópolis, meu destino final.

Segui direto para Buenos Aires, passando por diversas cidades na Argentina, como Jujui e Santa Fé, foram 57 horas de viagem por belas paisagens sendo atormentado pelo Saul, um boliviano de 6 anos que me fez ler para ele um gibi de 6 páginas do Hombre Aranha, umas 200 vezes, tirando quando ele não estava me chutando, enfiando o dedo no meu ouvido ou chorando. Vi bons filmes no caminho, foi muito bom para treinar o espanhol.

60 horas no onibus

Não há muito o que falar de Buenos Aires, acho o centro de SP arquitetonicamente muito mais bonito, porém lá não vi mendigos e usuários de crack dormindo ou vivendo nos monumentos ou praças.

Assisti uma corrida de stock-car bem no centro histórico de Buenos Aires, e percorri todos os pontos da cidade a pé até a Ricoleta, e lá pude sentar e tomar uma deliciosa cerveja caseira. Quando chego no bar, escuto uma galera falando português, deu aquela sensação de missão quase concluída, eram 3 casais curtindo uma semaninha em Buenos Aires, no apetite da cerveja e da boa comida. Com certeza foi uma recarga de energia poder sentar com brasileiros tão amigáveis, falar português, tomar a melhor cerveja em semanas.

Tomando uma na Argentina Tomando uma na Argentina

Nesta noite parti para o Uruguai, dormi facilmente após tantas cervejas e em um piscar de olhos estava lá. A refeição era ótima, enorme, comi uma carne e deixei o resto para almoçar no dia seguinte. Essa era a intenção, se não tivessem roubado a bandejinha do meu colo. Acho que foi uma velha sentada na poltrona na frente ao meu lado, mas resolvi nem acusar ninguém sem saber.

Começando a ficar sem dinheiro

O Uruguai é incrível e bem perto do Brasil, vale a pena ir de vez em quando. Não pude conhecer muito bem Montevideo, pois era domingo quando cheguei e estava sem nenhum peso uruguaio. Como aconteceu comigo algumas vezes, fiquei sem nenhum dinheiro na moeda local e não tinha como comer, beber, dormir, fazer nada. Meu ônibus saia em algumas horas, peguei um mapa e fui conhecer a região a pé. Juntei umas moedas e consegui comprar uma baguete com quejo e ramon.

Passei por Punta del Este, Punta del Diablo e segui pelo litoral até Chuí. Lá é o paraíso para quem quer fazer compras, como eu estava mais pobre, barbudo, sujo e até meio fedido, só me restava sentar em um botequim e tomar uma cerveja. Antes passei pela rodoviária mais zoada de todas e comprei minha passagem para Porto Alegre. Achei um bar barato onde podia sentar e descansar, depois de vários dias sem dinheiro e viajando. Até tive o privilégio de comer batata frita, assisti Faustão na televisão achando o máximo, estava quase conseguindo, estava no meu tão amado solo brasileiro.

Meu ônibus saía onze e meia da noite, o bar fechou e eu não tinha mais onde ficar enrolando, parti para a praça da cidade e fiquei sentado em um banco olhando as pessoas, com certeza não era um lugar seguro para estar aquela hora, resolvi ir para a rodoviária e uma surpresa, estava fechada e com uns elementos dormindo na porta. Fui para uma parte escura da rua e fiquei sentado esperando o ônibus chegar, só partimos eu e mais 3 pessoas.

De Porto Alegre até Florianópolis foi demorado, mas já estava acostumado com longas viagens e dormindo, lendo e vendo paisagens, a viagem passou bem rápido. Cruzei a ponte entrando na ilha e pronto, meu objetivo original estava completo. Consegui conhecer o pantanal, o deserto do atacama, o salar de Uyuni, vi o céu mais estrelado do mundo, gêiseres, vulcões, lagunas das mais diferentes cores, fiz amigos de todas as partes do mundo e o melhor, gastando R$ 780,00 ainda tinha 20 reais para gastar em Floripa.

Ponte em Floripa

Tenho família em Florianópolis, meus irmãos, pais e alguns tios e primos moram lá e esse foi o motivo da escolha como destino final, ao chegar meu pai não me reconheceu de longe e foi ver quem era no portão, não imaginava que o seu filho ia chegar ali com 10 kilos de bagagem nas costas, barba sem fazer por 22 dias e sem tomar banho por pelo menos 3 dias. Tomei um banho, fiz a barba e finalmente pude sentir o calor do mar de Florianópolis no verão, estava sentindo minha carne fria desde o episodio do frio intenso no ônibus e aquele mar do Campeche era um dos calores que eu mais desejava. Durante a noite gastei aqueles 20 reais tomando cerveja com os primos e contando essa aventura que você acabou de ler.

100_0508

No dia seguinte parti para São Paulo, para minha tão amada cidade, apesar do objetivo da minha viagem ter sido bem sucedida, para mim, voltar para casa é sempre a missão final, sigo a cartilha dos antigos navegadores, onde uma aventura só é bem sucedida se você volta para contar.

2 comentários

Compartilhe!
Compartilhar no Facebook! Tweetar! Compartilhar no Google+ Compartilhar no LinkedIn Enviar por email
Palavras:

Você vai gostar de ler:

Como chegar a Machu Picchu

Rota de volta ao mundo: Começando a organizar

Manual completo para viajar de navio de carga

Como fazer a Trans Siberiana

2 comentários
  1. Marcelo Responder
    4 de novembro de 2015

    ahhahahahaha
    muitoooooooooooooo boa essa estoria!
    eu já havia escutado ela algumas vezes, mas lendo é muito mais legal, menos dinâmico, mas a gente cria a estoria em nossa imaginação!
    muiiiiiiiiiiito bom!

  2. Oswaldo Marchein Responder
    10 de julho de 2017

    Parabéns Will, bela aventura
    Da pra fazer um best seller!!!!!!!!.
    Abraço

Participe! Faça seu comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*

*