Construção de barcos: Por onde começar

Data: 23 março, 2017

Categoria: Barcos

Quando falamos do sonho de construir um barco, as pessoas acham que somos ricos, malucos e geralmente não acreditam muito que o nosso sonho vai se realizar. Para quebrar esse ciclo, entrevistamos um projetista de veleiros que fala a mesma língua que nós, sonhadores e amantes de barcos.

Conheça a história do Gustavo Dantas e do seu veleiro Pequeno Príncipe 135. Projetista, velejador e apaixonado por barcos assim como nós, passou dicas que farão você finalmente tirar o seu sonho da gaveta. Vamos lá!

Quando e como você decidiu entrar no mundo dos barcos?

Sempre fui apaixonado por tudo que se movia, em especial aviões e carros. Tendo crescido em São Paulo e de uma família que nunca se interessou por barcos, somente no final de minha faculdade vim a ter contato mais próximo com eles. Velejava em barcos de amigos, e estudava bastante o assunto. Meu TCC em design foi sobre métodos tradicionais de projeto e construção de embarcações, acompanhando a construção de um barco de pesca por um artesão em Florianópolis.

Daí começou tudo. Depois de extensa pesquisa e já pensando em construir um barco, um dia minha esposa me disse que, se era para construir, que fosse um projeto meu, já que eu era designer. Daí nasceu o Pequeno Príncipe 135, cuja história e desenvolvimento está em vários artigos do meu blog. Minha formação como yacht designer foi em parte autodidata e em parte orientada por um engenheiro naval muito experiente.

Não temos a mesma cultura do faça você mesmo que na Europa e EUA. A pergunta é: É caro construir um veleiro no Brasil ou é tudo uma questão cultural?

As duas coisas. Explico: construir um barco não é caro, é bem mais barato do que comprar, ao menos se falamos de barcos de menor porte. Um veleiro como o Pequeno Príncipe 135 pode ser construído com menos de 5 mil reais, que é o preço de um veleiro monotipo usado, e mais barato que um veleiro pequeno cabinado de 16 pés usado também (os menores disponíveis).

Veleiro Pequeno Príncipe 135

Uma das barreiras que o construtor pode enfrentar é justamente o preconceito arraigado na nossa cultura náutica, segundo a qual a madeira é um material ruim, e que exige que se use apenas equipamentos e ferragens “navais” em barcos, o que muitas vezes encarece bastante a construção. Por exemplo, um mastro de alumínio pode custar alguns milhares de reais. Um de madeira feito em casa, algumas centenas. Qual é melhor? Ambos são excelentes, se produzidos e dimensionados corretamente.

Lembrem-se, as caravelas davam a volta ao mundo sem fibra de vidro, aço inox ou alumínio em nenhuma parte dos barcos.

De todos os veleiros que você desenvolveu, qual acha o mais adequado para um iniciante? E porque escolheu esse?

O Pequeno Príncipe 135 é uma escolha ideal: o tamanho permite ter um barco estável, confortável para 2, com uma cabine onde um casal dorme bem, e todo o projeto foi orientado para o menor número possível de peças, simplicidade máxima na construção, sem prejuízo para resistência e robustez.

É um barco que o construtor vai produzir desde o casco até o mastro, cunhos, estais. Uma escola de construção, marinharia e vela. Pequeno, pode ser rebocado por um carro popular, e construído e guardado numa vaga de garagem. Seu custo total pode ser inferior a 4 mil reais, e pode ser construído em um período de 6 meses, trabalhando nos fins de semana.

Além dele, estou desenvolvendo uma baleeira de casco trincado, em stitch-and-glue, que está sendo construído em Indaiatuba. Quando ficar pronto será um barco fácil e barato de construir, mas muito charmoso e interessante.

Em quanto tempo um iniciante pode construir seu próprio veleiro? É possível fazer isso sozinho?

Um veleiro aberto, um daysailer, construído pelo método stitch-and-glue, pode ser feito em 10 dias ou menos. Um bote do tamanho de um Optimist, como os que construímos no curso de construção de barcos, leva menos de 5 dias para ser completado.

O Pequeno Príncipe pode ser feito em pouco mais de um mês, por exemplo, se você trabalhar todos os dias de suas férias. Todos estes barcos podem ser feitos por uma pessoa. Você vai precisar de alguma ajuda no dia de virar e de desvirar o casco apenas.

De amante de barco para outro, qual dica você pode passar para quem está louco para colocar seus sonhos em prática e não sabe por onde começar?

Tem um artigo em meu site onde falo sobre alguns critérios para escolher um projeto. Você tem que sonhar alto mas pensar com os pés no chão. Eu também sonho com um veleiro grande para dar a volta ao mundo. Mas hoje, com um filho pequeno e uma adolescente em casa, trabalho, família, tenho que pensar num daysailer cabinado para passeios de fins de semana e feriados.

Como moro no sul, onde venta muito e não há muita proteção, o veleiro deve ter muita estabilidade terminal e deve orçar bem. Pessoalmente, gosto de barcos que adernam e velejam com a borda na água, os clássicos dos anos 30, com velas caranguejas e quilhas pesadas. Estou elaborando um projeto assim para construir. Será um barco valente e seguro, capaz de enfrentar mar aberto, mas barato e rápido de construir, pois minha situação financeira não permite fazer um 30 pés live-aboard.

Então é assim que se escolhe um projeto. Cada um deve colocar na balança seus sonhos, suas limitações, e seus planos futuros. Porque o barco dos sonhos tem que ser de madeira e ser velejado. Se ficar na sua cabeça e nunca puder ser construído vai se tornar o mais trágico dos naufrágios, que é não partir.

Um barco pequeno que pode ser feito agora é melhor do que qualquer outro com o qual você sonha no futuro. E não se iluda, um barco pequeno bem projetado vai longe.

O segundo passo é buscar aprender sobre a técnica de construção. Um curso é uma boa pedida, pois economiza meses de pesquisa na internet e te dá uma base prática incomparável. Fiz dois cursos, em dezembro e em fevereiro, e já há 3 novos barcos em construção, de participantes do curso.

O terceiro passo é angariar recursos. Isso depende do barco que você vai fazer. Uma tico-tico, uma furadeira e uma lixadeira treme-treme são tudo o que você precisa para fazer o PP135, por exemplo. E até barcos maiores. Quando você começar, vai acabar entrando em contato com uma comunidade de apaixonados que vai ser de grande ajuda com dicas, peças, mão de obra, e muito mais.

Fale um pouco sobre o seu pioneiro curso de construção amadora. Quem pode participar?

Este curso é para todos. É uma grande reunião de sonhadores e apaixonados, e tem desde estudantes de engenharia naval, pessoas das mais diversas idades que querem construir seu sonho, velejadores experientes buscando aprender mais sobre os materiais e técnicas que ensino, e tive até um construtor de canoas canadenses, super experiente, mas buscando refinar o que já sabia. Isso cria um ambiente de intenso aprendizado.

Depois do curso, eles continuam mantendo contato e vão mostrando o que estão fazendo, trocando idéias. Não há limite de idade, experiência ou habilidade. Esta técnica inclusive é perfeita para quem não tem muita habilidade ou experiência com madeira e fibra. No curso construímos um bote de 2,1m, pronto para colocar na água, em um fim de semana. Claro que não está completo com ferragens e acessórios, já que o tempo de cura da resina não permite fazer o barco em prazo tão reduzido, mas as principais técnicas e etapas da construção de um barco como o PP135 são vistas e praticadas no curso, desde desenhar as peças na madeira, cortar, costurar, fazer a colagem, fibrar, dar acabamento na fibra para posterior pintura, entre outras.

Na parte teórica, abordamos diversos pontos da construção de um barco, como acabamento, equipamento, mastreação, motor, ou outros pontos que a turma levanta. Com relação aos materiais, mostramos as resinas, cargas, fibras, compensados, e explicamos como selecionar, comprar e usar estes materiais. Para isso tenho contado inclusive com o apoio da Redelease, que fabrica resinas e fibras.

Para nós amantes de barcos, nada é mais prazeroso que poder bater um papo com uma pessoa tão apaixonada pelo assunto quanto nós e mais experiente no assunto. Anote o blog do Gustavo e se restou alguma dúvida, aproveite que ele é bem acessível e gente fina.

http://projetosdeveleiros.com.br/
https://gustavodantas.wordpress.com/

Esperamos que tenha gostado da entrevista! Bons ventos.

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