Entrevista: Construindo e vivendo o sonho de um mundo melhor

Data: 18 Maio, 2015

Categoria: Sonhos

Como eu citei há alguns posts atrás, tenho a sorte de conviver com diversas histórias bacanérrimas de pessoas que largaram o modo convencional de viver para realizar seus sonhos. Pretendo compartilhar muitas delas por aqui.

A ideia é abrir um espaço para que essas pessoas contem suas sagas e inspirem você, leitor, a encontrar o seu próprio caminho para realizar seus sonhos.

Se as histórias de nossos amigos inspiram a mim e a meu marido, ao ponto de querermos criar este blog para compartilhar cases admiráveis, eles hão de inspirar a muitos de vocês.

Vejam o que vem por aí:

A primeira história que compartilhamos é de uma grande amiga de faculdade. A Mii trabalhava há oito anos em uma importante indústria farmacêutica, na área de projetos de responsabilidade social e sustentabilidade. Cansada de muito discurso e pouca ação, decidiu mudar seu mundo, para mudar o mundo: comprou um terreno no sul de Minas Gerais e está construindo um sítio permacultural, que também é um espaço de aprendizagem e intercâmbio de vivências.

Da megalópole aos dois hectares de terra em São Tomé das Letras, a Mii tem uma bela história de determinação, planejamento e foco na realização de um sonho. Por isso, ela não pode – e não deve – ficar fora desse blog.

Confira um pouco da história desse sonho!
Como e quando você percebeu qual era seu verdadeiro sonho na vida?

Putes, é foda falar do “verdadeiro sonho”, porque hoje eu sinto que a verdade da gente está sempre se transformando, conforme a gente conhece pessoas, lugares, saberes novos… então esse sonho, ele não é: ele está.

Agora, é cultivar uma floresta que produza água e comida sem aditivos e regenerar a paisagem natural em um terreno que foi virado pasto há décadas; pra isso, conseguir promover o máximo de integração entre os elementos do espaço — o que permite o maior aproveitamento dos recursos e a geração o mínima de lixo.

É também criar um lugar (e participar de outras movidas na mesma pegada) onde se possa aprender e compartilhar em comunidade, enquanto ampliamos nossa autossuficiência e autonomia. Mas pode ser que, em breve, essas vontades mudem – e provavelmente vão, no movimento de tudo que é vivo.

Então eu posso te contar como foi que troquei o “ambiente corporativo” e a rotina na cidade pela permacultura e pela roça, que é o lance atual. Lembra que, desde que a gente se conhece, eu sonhava trabalhar na área social? Achava que era uma forma bacana de pagar as contas e dar uma contribuição pra “melhorar o mundo”.

Comecei nos projetos sociais, daí entrei para o terceiro setor e passei pela responsabilidade socioambiental corporativa, até chegar à “sustentabilidade empresarial”. Penso que não rolou um “quando”, mas a própria trajetória fez sacar que sustentabilidade empresarial não é o mesmo que sustentabilidade planetária (no contexto do capitalismo, não tem como ser) e que o aquilo que eu defendia era cada vez mais distante do que praticava: eu atuava em projetos de educação ambiental, pregava o mínimo de consumo para se poupar o planeta e produzir menos resíduos, mas eu mesma criava um monte de “[des]necessidades” — que eu justificava com a rotina opressora da cidade e a correria do corporativo (uma roupinha nova pra um evento aqui, uma comidinha do shopping ali, um rolê pra desestressar…); defendo a mobilização comunitária para sanar os conflitos sociais, mas fumo maconha e nunca tinha levantado uma palha pela legalização, mesmo concordando que o proibicionismo e o tráfico são da mesma engrenagem;

ia nas passeatas pró-transporte coletivo e gratuito, mas me deslocava com carro particular pago pela empresa, vestindo a carapuça de que “essas são as regras e é assim que a coisa funciona”; eu falava de sustentabilidade, mas eu mesma não sabia me sustentar, porque o que eu sabia de fato era trabalhar para o lucro de uma corporação, que me pagava e eu usava a grana pra comprar o que eu julgava precisar;

e bradava contra a desigualdade e panfletava em favor da distribuição de renda, da diversidade, da educação libertária… mas abraçava a meritocracia e aceitava que me remunerassem até oito vezes mais que uma pessoa que trabalhava no mesmo projeto e até quatro vezes menos que a meus superiores; eu aceitava, inclusive, a hierarquia, essa ideia que hoje me soa absurda que é ter superiores ou ser superior à alguém!

Enfim, são só alguns exemplos de como o que era confortável e até bonito na minha cabeça, o que fazia do meu emprego uma parada admirável, o que antes era normal (aquilo que somos educados para conceber, a maioria de nós, como o caminho certo)… tudo foi virando um incômodo tremendo.

E durante um tempo, tudo estava errado: os outros, o trampo, a firma, o sistema. Só que eu não sabia como resolver, tinha aluguel pra bancar, prestação do consórcio, a coisa toda que eu criei e chamei de vida até então.

Daí vieram as leituras – entre outras, Admirável Mundo Novo e Arquitetura dos Povos Indígenas da Amazônia, que juntas me mostraram a esquizofrenia da modernidade capitalista (que celebra o paradigma da escassez e o da linearidade crescente, em detrimento da visão holística e da concepção espiral do fluxo e da evolução);

teve também a releitura do Manifesto, com o Marx esfregando na minha cara o “socialismo burguês”; os vídeos, como os do Eduardo Marinho e o documentário 2012: Tempo de Mudança, que sintetizam bem o sentimento atual; e, claro, as conversas e encontros com gente que está na movida há muito mais tempo…

Mas acho que foi a consagração da ayauasca, que rolou junto com o primeiro contato mais profundo com a permacultura, que fez emergir de vez o óbvio: a única mudança real é a nossa própria. E que, quando a gente inicia, cria-se um fluxo.

O trampo, o sistema e todo o resto sempre estiveram lá e ainda estarão por uma caralhada de tempo. Eu que havia escolhido me embrenhar neles. E chegava a hora de sair. Portanto, o lance não era mais exigir a mudança, era ser a mudança. Não era fazer o discurso, era agir e praticar o que acreditava e defendia. E, se pás, inspirar quem se sinta tocado pela mesma vaibe, cada um no ritmo das próprias descobertas.

Saquei que “os outros” somos nós e parti para buscar ser eu mesma o “melhor” que eu sonhava que o mundo fosse.

O projeto está quase finalizado!!

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