Entrevista – Como é um Retiro de Meditação?

Data: 25 agosto, 2016

Categoria: Sonhos

Quanto mais fundo mergulhamos no universo das pessoas que vivem de aventuras, que decidiram realizar seus sonhos ou fazer consideráveis mudanças em seus estilos de vida, mais semelhanças encontramos nos capítulos que antecedem o momento da decisão de partir para novos rumos.

Rupturas, traumas, separações, decepções. Nascimentos, uniões. Descobertas. Epifanias.

Aquela vontade que seguia adormecida, o ímpeto de partir, de mudar, de viver mais intensamente, toma uma injeção de energia e surge forte, borbulha, incomoda, abre o campo de visão e nos permite enxergar de forma mais ampla o caminho que já foi trilhado e as opções que existem dali em diante.

Uma inquietação que nos leva a experimentar, que nos enche de coragem para realizar sonhos, traçar planos. Mudar.

E a mudança é definitiva. Mesmo que se decida voltar ao caminho trilhado anteriormente, a mudança ocorreu internamente e enxergamos de outra forma o mundo, o trabalho, o conceito de sucesso e de felicidade.

Assim ocorreu com tantos conhecidos. Velhos amigos ou novas amizades feitas na volta ao mundo e em nosso novo estilo de vida. E também ocorreu em tantas histórias famosas… quem não conhece, por exemplo, a história de Comer, Rezar e Amar?! 😉

E assim ocorreu com a Marianna, que entrou em nossa história em Ouro Preto (MG), durante nossa jornada pela Estrada Real. Marianna mudou de carreira há poucos anos e, mesmo assim, ainda sentia a inquietação tomar conta de seu corpo e mente.

Marianna

Foi, então, que decidiu partir para um Retiro de Meditação, no qual ficaria 10 dias em silêncio. Marianna é comunicativa, bem humorada, piadista e falante como eu! E, assim como eu, também tinha milhares de dúvidas de como se sentiria ao silenciar-se por 10 dias consecutivos… nem sabia se iria aguentar!

Mesmo assim, ela foi. A energia da mudança borbulhava dentro dela. A inquietação a levou até uma experiência incrível que agora compartilhamos com vocês nesse relato delicioso de ler!

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Meditação Vipassana ou Descobrindo o caos que mora em você.

Já ouviu falar em Vipassana? Não? Ok, explico de forma resumida: é uma técnica de meditação que foi ensinada por Buda, há séculos. Consiste em ensinar o meditador a silenciar a mente e prestar atenção única e exclusivamente no seu corpo e suas sensações. Sem mantras, visualizações ou qualquer outro método.

Existem centros que oferecem cursos de Vipassana. O primeiro, obrigatório para quem quer conhecer a técnica, tem a duração de dez dias, durante os quais além de não existir a possibilidade de comunicação com o mundo externo (sim, esquece celular e whatsapp, baby), não é permitido falar com nenhum dos seus colegas de curso durante todos esses dias. É o chamado Nobre Silêncio.

Existem dois professores: um homem para os alunos e uma mulher para as alunas. Homens e mulheres ficam completamente separados durante todo o tempo. Temos, ainda, os gerentes do curso. E, da mesma forma, é um homem responsável pelos alunos e uma mulher pelas alunas. Com eles, professores e gerentes, podemos falar o que for necessário e, mesmo assim, de forma resumida, rápida e aos sussurros.

Vipassana

A organização é impecável. Assim que chegamos recebemos todas as orientações necessárias: horário de acordar, das meditações, refeições e descanso. E, aí, o coração começa a ficar um tanto descompassado: acordamos as quatro da manhã, são dez horas de meditação por dia, e a última refeição, um lanche que consiste em fruta, chá e leite, é as 17:00. Depois, só as 6:30 do dia seguinte.

E isso para uma pessoa que nunca havia meditado, e que confunde até dor de dente com fome, convenhamos, é um cenário assustador.

No dia em que chegamos, temos uma primeira meditação em grupo. Cada aluno tem sua almofada com um número. E ali será seu lugar até o último dia de curso. Caso precise mudar, é necessário pedir ao gerente antes, pois existe um mapa indicando onde cada aluno está. Homens e mulheres meditam na mesma sala, mas eles de um lado, nós de outro. Ninguém pode olhar para ninguém. Os professores é que ficam de olho em absolutamente tudo, e somos guiados por áudios do Mestre S.N. Goenka, que vai nos indicando sobre o que fazer a cada dia. Nesta primeira meditação, sofri por não achar posição. Tudo incomodava e doía um pouco. Minha salvação, foi um banquinho que me foi emprestado por uma amiga que já havia feito os dez dias, que é especialmente para meditar mesmo.

Serei grata por ela ter sido, na verdade, o canal de tudo isso e pelo banquinho, até o último dia da minha vida. Juro.

Na hora dos cânticos, que são em Páli, língua falada na Índia, estranhei muito. Tive vontade de rir, confesso. Até que, pasmem, cochilei. Mais um sinal de que não seria mesmo nada fácil.

Nos recolhemos as 21:00 para dormir. Aproximadamente as 21:01, já estava em sono profundo.

Quatro da manhã: hora de acordar, despencar da cama, e me preparar para o dia 1. A técnica ensinada nos três primeiros dias, chama-se Anapana. Você presta atenção apenas na respiração.

vipassana3

Quase como uma porta de entrada para Vipassana. Então, era isso: silêncio, concentrar na respiração, e meditar. E foi aí que eu entendi o quão barulhenta caótica e insana a minha, a sua, a nossa cabeça pode ser. A mente BERRA! É incrível como não sabemos parar de pensar, imaginar, elocubrar… fazemos qualquer coisa, menos prestar atenção em nós mesmos, de forma forma plena e silenciosa. Foram duas horas de muito trabalho até o café da manhã.

No terceiro dia, as coisas estavam um pouco melhores: o corpo doía menos, minha concentração melhorava e já tinha um horário preferido de meditação, que era o das oito da manhã. Me concentrava bem até que, um dia chorei. E segui chorando nesse horário por todos os dias. Com a melhora da concentração, as sensações do corpo ficam mais perceptíveis, a mente amansa e, assim, sentimentos acumulados de uma vida inteira começam a vir à tona. E, sim, machuca.

Dia 5 e, finalmente, Vipassana! Agora é assim: sai do nariz, vai para o topo da cabeça e começa a percorrer o corpo inteiro percebendo todas as sensações, das mais grosseiras às mais sutis, sem reagir a nenhuma delas. Ne-nhu-ma. Coçou? Deixa. Doeu? Esquece. O pé ficou dormente? Passa.

Foram duas horas seguidas de Vipassana. Cento e vinte minutos do mais puro desespero. A cabeça ia e vinha, queria mexer, estalar dedos, virar o pescoço, gritar e sair correndo. Quando acabou, fui para quarto, sentei na minha cama e chorei todas as dores do mundo. Meu corpo doía, meu coração estava em pequenos pedaços. Era dor física e emocional. Como eu nunca havia percebido tantas coisas antes? Na hora de dormir, o pensamento foi claro: amanhã, eu vou embora daqui. Chega.

No primeiro momento de descanso do sexto dia, arrumei minhas malas. Fui meditar, comi, voltei para o quarto e dei de cara com uma das minhas companheiras, a que dormia na cama que ficava embaixo da minha, a que veio no mesmo ônibus que eu, aquela com quem tive tantas coisas em comum logo de cara, um encontro de almas. Por um segundo, não me senti tão sozinha. Pensei que também não deveria estar sendo fácil para ela e, na verdade, para ninguém. Talvez, quem sabe, eu consiga passar por hoje, pensei.

E veio o sétimo dia. Com muito frio, névoa e chuva, que foram verdadeiros calmantes para mim. Meditei bem em todas as horas, estava serena e focada. Foi o único dia em que não pensei em ninguém. Não tive saudades, medos ou preocupações. Fiquei em paz comigo.

Os últimos dias foram passando sem machucar tanto. Quer a gente queira, quer não, vamos , aos poucos, fazendo as pazes com a nossa história, com o nosso corpo, com todo o nosso ser. Nenhum dia é todo bom quando estamos lá. E nenhum é todo ruim. Me diga, não é assim que é a vida? Tudo passa, e é este um dos grandes recados do Vipassana. Uma coceira, assim como uma grande mágoa, passam. Não há sentido em remoer, em guardar. Para que formar esta crosta de sentimentos em nós mesmos? Não faz sentido. É uma sensação simples, mas o processo é intenso.

vipassana2

Na manhã do décimo dia, já via de longe o brilho no rosto das meninas, afinal, as 9 da manhã daquele dia, íamos voltar a falar. Era o fim do Nobre Silêncio! Último dia. Sobrevivemos. E que lindeza foi ouvir tantas vozes, conhecer tantas histórias. A vontade é de falar com todo mundo ao mesmo tempo, parece que todo mundo ali havia acabado de nascer. Subi numa pedra, olhei bem para as montanhas que haviam ao redor e agradeci por ter ido até o fim. Foi incrível perceber que sou mais forte do que supunha e que, uau!, tenho menos fome do que pensava!

O horário das refeições assusta, mas não passei fome hora nenhuma. A comida é muito gostosa, vegetariana e simples. A cada dia, comia menos, para não pesar na hora da meditação. No lanche eu tomava leite morno com chá, coisa que nunca suportei na vida e isto é mais um aprendizado, saber lidar com a comida. Comer de tudo, para não ter fome. Não torcer o nariz para o alimento, evitar o desperdício e agradecer por cada prato de comida ao longo dos dias. Nem no que comemos prestamos mais atenção e isso é um mau sinal.

Saí de lá renovada, feliz, plena. A estrada é longa ainda. Preciso continuar meditando e, sim, pretendo voltar. E quero ir para servir, porque são os alunos antigos que fazem a comida e ajudam na organização de cada curso.

Não falo aqui para vocês: Vão, é ótimo!

Mas, falaria para irem tentar. Para irem se conhecer. Se não ficarem até o final, ok. Tentem de novo, ou não. Mas, dêem uma chance à técnica.

Vamos até o fundo do poço, sofremos no nível físico, mental e emocional. E aprendemos que passa.

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