Entrevista: Indo morar em um veleiro

Data: 23 dezembro, 2017

Categoria: Barcos

Entrevistamos o casal do IPA Dive que está finalizando a construção do seu veleiro para viver o sonho de ir morar em um barco e viajar o mundo. Agradeço desde já a atenção que o casal deu para o Trabalhe seu Sonho e espero que você goste da leitura!

1. O veleiro que vocês escolheram para viver foi um MJ38, quais características levaram vocês a escolher esse veleiro?

De uma forma muito resumida, escolhemos o MJ 38 porque nos sentimos em casa quando entramos nele! A dica de dezenas de velejadores quando estávamos em busca de um foi: sinta-se em casa quando entrar no barco. E o MJ38 foi o 1° e único que visitamos à época que nos trouxe esta sensação, de poder nos imaginar morando nele. Mas pra chegar neste modelo, primeiro pensamos nos nossos planos, pois o barco deveria comportar alguns pré-requisitos.

O 1° deles é que o JP deveria se sentir confortável dentro dele com seus 1,82 m de altura. Então precisávamos de uma sala confortável para pessoas altas! Não somos tão altos assim, mas pra viver a bordo sem sofrer tanto, a sala principal pra gente tinha que ter uma altura razoável.

2° que queríamos iluminação interna. Sem essa característica de barco pirata escuro, fechado e enclausurante lá dentro. Estávamos buscando a nossa casa flutuante e todos sabem que casa arejada vale mais pra saúde!

3° que nossos planos consistem em fazer charter e, portanto, certos confortos precisavam estar em mente: por exemplo, ter um banheiro exclusivo para os hóspedes, cabines separadas e com portas para se ter o mínimo de privacidade (se é que isso é possível dentro de um veleiro). Mas já nos hospedamos em veleiros no mesmo estilo e foi tão confortável quanto ficar num quarto de hotel, você fecha a porta e, por mais que ouça as conversas nos outros quartos bem baixinho, você se sente como em uma cama de hotel num hotel com paredes dry wall. Então a gente ganha em privacidade para o hóspede.

4° o preço. Ele tinha que ficar dentro de nosso orçamento sem nos fazer entrar em grandes dívidas a perder de vista.

Então nesta ordem de prioridade, chegamos ao MJ 38! Um belíssimo barco, com uma sala incrível, muito espaçoso e que cabia no nosso bolso!

2. Como é a relação entre o estaleiro e vocês? Daria uma dica para quem vai começar em um projeto de construção do veleiro?

A relação com o estaleiro é ótima! Como é uma empresa familiar, temos vantagens e desvantagens, mas enxergamos que são muito mais vantagens nessa conta! Isso porque eles se preocupam em nos ajudar nesta mudança, nos veem como seres humano e quase parte da família! Cuidam sempre do barco como sendo nosso lar, de verdade. E são bastante solícitos conosco. Toda e qualquer modificação que fazemos no barco, eles avaliam e aplicam no projeto. Nos falam a real das vantagens e desvantagens das mudanças e também em como adaptar as coisas. Ficaram horas com a gente dentro do barco avaliando e mostrando cada detalhe do barco durante toda a construção.

Desde a nossa primeira visita no estaleiro percebemos o relacionamento familiar e que isso é importante quando se fala de construir sua casa! Então foi decisivo pra gente. Além da história que eles tem como empresa. Estão há muitos anos no mercado, falamos com antigos donos de barcos e sentimos confiança.

A dica para o relacionamento com qualquer estaleiro é desconfie dos prazos que eles te derem, SEMPRE. Qualquer estaleiro no Brasil (já falamos com outras pessoas que mandaram construir seus barcos em outros estaleiros no Brasil também) tem um processo absurdamente artesanal. É legal porque você consegue colocar a modificação que quiser no seu barco a medida que ele vai sendo construído. No entanto, isso pode atrasar (e muito) o andamento da obra. Mesmo que eles digam que não.

Como toda obra, mesmo em casa, sempre aparecem os probleminhas no meio do caminho e por mais que tenham muita experiência no processo, cada barco é um barco, numa situação econômica e política diferente, o que faz a construção de barcos no Brasil ser uma verdadeira e emocionante montanha russa!

Então se te foi prometido entregar em 1 ano o barco, coloque mais 6 meses. Sempre coloque pelo menos mais 6 meses de atraso. Estes atrasos, inclusive, serão ocasionados um pouco pela falta de conhecimento do processo e atraso do próprio dono do barco em comprar alguns itens adicionais, como foi nosso caso. Como não tínhamos toda a grana para eletrônicos, levamos um prazo maior para decidir questões como parte elétrica e de fiação para início da elétrica, já que queríamos investir em cabos mais resistentes à corrosão (que compramos fora do pacote do estaleiro).

Então é como qualquer outra construção por aí. Depende-se muito de dezenas de fornecedores que, no meio náutico, são péssimos e em número muito pequeno, o que não tem concorrência tem um serviço de atendimento e pós venda muito precário e isso também está totalmente fora da alçada do estaleiro. Então é um processo mais complexo que uma casa, por exemplo, que a cada km na cidade você encontra uma casa de materiais de construção. No Brasil esse mercado é minúsculo e dominador. Então já se prepare para os altíssimos valores e também um serviço de atendimento bem aquém. Adicionamos o fato de que alguma parte destes materiais (como gaiutas, vigias, eletrônicos e outros detalhes) são importados, o que acaba deixando o processo ainda mais moroso.

Então a dica principal é: aprenda a controlar a ansiedade e trabalhe sua paciência, além do espírito negociador para não gastar o dinheiro no 1° orçamento que te mandarem. SEMPRE peça desconto porque eles tem margem!

3. Agora sobre a burocracia de ter um barco? Como estão resolvendo esses problemas? É caro?

Esta burocracia de ter um barco ainda não chegou pra gente. Estamos matando um leão por dia para a construção e não deu tempo de pensar nessa “burocracia”, se é que existe. A princípio, nossos planos é ficar na âncora ou poitas e não gastar os tubos com marinas. Então nesse ponto de vista estamos mais tranquilos, pois não conhecemos, de fato, esta realidade. E a ideia de ir navegando e não ficar muito tempo num só lugar também nos parece menos custosa.

A burocracia que já enfrentamos mesmo é só para nossas habilitações junto à Marinha, que é cheio de detalhes chatinhos que são bem mal explicados no site deles. Quanto à burocracia da documentação do Prosperus, contratamos uma empresa despachante para desenrolar pra gente para não termos que ficar descendo pra baixada para fazer isto e assim economizamos nosso tempo. Não achamos caro, equivalente a um despachante normal mesmo.

4. Nas contas que vocês estão fazendo, qual o custo por pé que estimam gastar em marinas pelo Brasil?

Acho que respondemos um pouco acima também, pois não pretendemos ficar em marinas mesmo. Somente em poitas e âncora. Vamos parar nas marinas apenas para algum serviço de manutenção que precisarmos fazer. E ainda não vimos os valores, pois isso varia bem e depende de negociação. Então não nos antecipamos neste nível. Hehe!

5. Vocês já estão preparando o barco para navegação em mar aberto. Quais as maiores dificuldades que vocês estão enfrentando para equipar e deixar o veleiro pronto para a jornada?

Exatamente, o Prosperus já estará parcialmente pronto para travessias oceânicas. Isso porque o custo dos equipamentos de navegação costeira já são altos. Com um pouco mais de dinheiro, colocamos os equipamentos de salvatagem Classe I para navegação oceânica homologado pela Marinha. Se o custo fosse menos que a metade do preço, pensaríamos em costeiro para depois fazer o upgrade, mas não foi o que encontramos nas lojas, então fomos logo para oceânica.

Dificuldades nesta parte não tivemos. Foi bem tranquilo acessar a Norman e comprar a salvatagem que precisava. E os próprios vendedores das lojas tem bastante conhecimento sobre o tema para ajudar.

Agora no quesito eletrônicos, uau! Ainda não terminamos de equipá-lo para uma travessia. Esperamos que até chegarmos a nossa primeira travessia já tenhamos um piloto automático, pois ainda não conseguimos comprá-lo (pelo custo). Mas nossa ideia é ir pro mar, ir navegando e ir sentindo a necessidade. Por hora, temos o mínimo para sair: rádio VHF fixo e portátil com GPS, 2 celulares e 1 tablet com Navionics para navegar, EPIRB, guincho de âncora, controlador de carga, AIS, estação de vento, bidata e inversor. O que ainda não compramos é que sempre ouvimos muitas pessoas dando opiniões divergentes, então decidimos ir pro barco e ir sentindo a necessidade, se tivermos, compramos, caso contrário, ficamos sem! Cada pessoa tem um nível de exigência de conforto e precisamos também aprender que tipo de navegadores seremos nós. Isso dirá muito sobre a quantidade de equipamentos que teremos a bordo.


6. Sinceramente, levando toda a parte técnica em consideração é acessível ter um barco no Brasil? Já pesquisam valores lá fora?

Olha, essa pergunta é bem difícil de se responder. Nós temos alguns pensamentos que nos influenciaram muito para comprar um barco no Brasil e nossa história nos levou a essa decisão. O fato de não conhecermos nada do mundo náutico, de barcos em si, nos fez ficar com muito medo em comprar barco lá fora. Sem uma indicação extremamente confiável de um broker, não tínhamos como saber o que olhar num barco usado. Comprar um de fora para importação sairia ainda mais caro que comprar no Brasil. Como nossos planos sempre foram de navegar em águas brasileiras, não fazia muito sentido pra gente comprar um lá fora e sequer ter a chance de navegar pela nossa costa sem data pra acabar (já que barcos com bandeira estrangeira não ficam mais de 6 meses no Brasil). Nosso país é muito grande, rico e lindo, não queríamos fazer uma passagem a jato, mas uma passagem que nos permitisse também conhecer nosso país! Então essa opção nem pesquisamos muito porque não se encaixava nos nossos planos.

E nosso medo de comprar um barco usado que desse ainda mais trabalho pra gente que um barco novo, estava fora de cogitação! Lembrando que comprar um usado, você normalmente tem que pagar a vista (e não tínhamos essa grana toda), pagar a marina pra manutenção (que também é cara), o marinheiro, o avaliador e tantos outros profissionais que deixarão o barco bom pra navegar. Então pra gente pareceu inviável frente ao cronograma de longo prazo que tínhamos para pagar o nosso MJ 38 enquanto ele ia sendo construído. Além do prazo que daríamos para nós para aprender mais sobre barcos. Lembramos novamente que nunca soubemos nada de barco! Que essa não era nossa realidade. Então esse prazo de construção do Prosperus nos permitiu entrar no mundo náutico, fazer aulas de vela, cursos que nos dariam suporte, pesquisar, pesquisar e pesquisar muito sobre o mundo que escolhemos entrar. Foi muito gostosa essa parte! Pra gente foi a escolha ideal, sem comparação com nenhuma outra opção.

E uma coisa que estamos tentando desmistificar, o Brasil é tão precário no mercado náutico por pura falta de demanda!! Se a gente, como brasileiros, escolhermos sempre ir pra fora comprar estas coisas, o nosso mercado vai continuar assim, pequeno, mal servido, ruim. E para um país como o Brasil com mais de 8 mil km de costa, é quase uma heresia não termos uma indústria náutica desenvolvida como a Holanda, por exemplo! A nossa indústria náutica poderia gerar milhares de empregos e valorizar ainda mais a nossa costa, ocupar espaços que hoje são normalmente ocupados por europeus e americanos ligados na náutica. Se podemos ter uma Embraer, podemos ter uma indústria náutica à altura! E isso só vai acontecer se começarmos com as nossas escolhas como brasileiros. Precisamos incentivar esta indústria, pois ela é ridícula perto de tantos outros países. Então pra gente foi uma questão de honrar o nosso país nisso.

Sim, foi difícil. Diariamente sofremos as consequências de nossas escolhas, mas temos a consciência leve de saber que estamos incentivando este mercado que luta tanto por um espaço hoje. Pensem como os estaleiros. Se olharmos um estaleiro famoso na França, eles entregam cerca de 2 mil veleiros por ano, enquanto a MJ entrega, no máximo, 10 veleiros num ano muito áureo! Ou seja, eles tem demanda, geram a demanda, atendem à demanda, crescem, melhoram tecnologias. Enquanto nós, estamos indo lá comprar produtos deles porque já se desenvolveram às nossas custas. Então nos pareceu um dever de cidadão encarar isto. E temos tentado motivar a profissionalização e organização do setor. Com todos os fornecedores que falamos, todos os pequenos detalhes envolvidos, estamos tentando alavancar, ajudar a crescer, disseminar essa verdade que é: sem demanda, nada vai melhorar. Então sim, apostem nos produtos brasileiros, pois eles são bravos, são robustos e bem feitos! Estamos muito satisfeitos com nosso MJ 38 e sabemos de outros compradores que o barco é um trator!

7. Para fecharmos, de todo esse processo que vocês estão passando, tecnicamente, qual a maior dificuldade enfrentada e como vocês estão contornando esses problemas.

A maior dificuldade realmente tem sido controlar a ansiedade. Este sim é nosso maior desafio, de verdade. A medida que o Prosperus foi tomando forma de casinha, fomos nos empolgando, fomos gostando, estudando, nos preparando. Chega um momento que se tem que ir, e esse momento parece que está demorando infinitamente para chegar. Não tem 2 anos que estamos construindo este veleiro, mas parece-nos 1 década, tamanha é a intensidade deste conhecimento e de nosso envolvimento neste projeto. Então isso sim é nosso maior problema hoje! Hahaha! E os atrasos, obviamente, nos pegaram um pouco desprevenidos, já estamos há 7 meses morando com os pais da Dri (o que era pra ser apenas 4 meses) e já vai virar 8 meses. Quanto à parte técnica, creio que tudo é superável, basta uma boa determinação em estudar e se resolver os problemas. Se não está disposto a aprender, nem compre um barco.

Mas um ponto que ainda não conseguimos resolver é o tratamento de esgotos. Aparentemente no Brasil isso não é desenvolvido e as pessoas nem estão interessadas em resolver. Todos falam que nada funciona e ainda não decidimos esta parte. Provavelmente vamos decidir quando estivermos a bordo mesmo e um pouco mais experientes. No Brasil tudo é jogado em mar aberto, ou se usa o banheiro da marina, por isso que parece sempre que um cara com um barco está obrigado a ter uma marina, mas não é verdade. Lá fora todo mundo tem, ao menos, um holding tank para armazenar os dejetos, é lei! Aqui no Brasil, nem falamos do tema. Afinal, nem metade da população em terra ainda tem saneamento básico, então isso realmente nem chegou nos barcos. Mas é algo que pretendemos estudar e fazer no nosso barco para cumprir com nosso dever e compromisso de promover a sustentabilidade a bordo.

Não deixe de acompanhar a construção do Prosperus, eles estão produzindo bastante conteúdo de qualidade para nós amantes de veleiros e vale a pena ir acompanhando a construção do veleiro etapa por etapa.

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Bons ventos!!!

4 comentários

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4 comentários
  1. 25 de dezembro de 2017

    Conheci JP e Adriana há quase um ano, num curso de construção de barcos. Nessa mesma época fiz contato com Wil Gittens. Bom ver sonhadores se reunindo, bom ver que mais e mais pessoas estão investindo em seus sonhos. Analisando friamente, o investimento neste veleiro não é muito maior que um apartamento em São Paulo. E o custo de manutenção não é superior ao condomínio e IPTU de um ape decente. Então é uma questão de qual a sua prioridade na vida. Que experiência você wuer vivenciar. Bons ventos ao casal!

    1. 26 de dezembro de 2017

      Bem por aí, Gustavo! Ficamos felizes com todos os passos que seguimos até aqui, do curso, dos amigos que conhecemos e nos unimos, das histórias que queremos viver! Tudo depende do foco e da quantidade de amor que se coloca na realização do sonho! <3 Obrigada pelo apoio de sempre!

  2. 26 de dezembro de 2017

    Agradecemos ao querido casal do Trabalhe seu Sonho pela oportunidade de contar nossa história e pelo carinho conosco! Certamente nos encontraremos a bordo do Prosperus para mais e mais aventuras! =) Um 2018 repleto de alegrias e desafios a vencer! =)

  3. 28 de dezembro de 2017

    Poderia ter falado um pouco sobre custos de fabricação.

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