Mongólia – Inesquecível parque nacional Gorkhi Terelj

Data: 12 Abril, 2016

Categoria: Mochilão

No post anterior, compartilhamos com vocês nossas experiências na capital da Mongólia, Ulan Bator, e concluímos o post recomendando fortemente que você dedique poucos dias para a cidade, mas que não deixe – de jeito nenhum – de esticar seu período na Mongólia visitando algum (ou alguns) dos parques nacionais, e/ou o deserto de Gobi.

Mongólia é um país vazio, com quilômetros e mais quilômetros de terras inóspitas, desertos, parques nacionais com áreas maiores que muitos países inteiros. População pequena, de 3 milhões de habitantes, concentrados principalmente na capital Ulan Bator. E quem não habita fixamente a capital e outras cidades menores, está em constante movimento. Sim, os nômades ainda são uma boa parte da tradicional população mongól.

Nós já havíamos lido bastante coisa sobre as famílias tradicionais que vivem nas Gers (casas típicas dos nômades), encontramos blogs de gringos que haviam passado alguns dias hospedados com famílias nômades e os relatos nos encantavam fortemente. Queríamos muito passar por uma experiência parecida!

Então, assim que chegamos a Ulan Bator, pesquisamos a fundo as alternativas para chegar a uma família nômade e concluímos, chateados, que não conseguiríamos fazer isso por conta própria. Afinal, os Parques Nacionais e o Deserto de Gobi ficam a, no mínimo, 90 km de distância da capital e apenas um ônibus pode te levar até a porta do Parque mais próximo da cidade, o Gorkhi Terelj.

Porém, do portão de entrada para dentro, o parque possui a extensão de Cingapura! Isso mesmo: um parque que é do tamanho de um país.

Mesmo que decidíssemos alugar um carro, como faríamos para abordar uma família que confiasse em nós? Não queríamos, de jeito nenhum, passar a noite em uma falsa Ger, em algum dos diversos campings e hostels que há dentro dos parques.

Portanto, mesmo contra a nossa vontade e a proposta da trip, era necessário desembolsarmos uma grana considerável e contratarmos um pacote turístico. Conversamos, então, com o Heiigi, o dono do hostel onde nos hospedamos, e explicamos qual era a nossa vontade e nosso orçamento máximo.

Assim, com a experiência e contatos que tinha, organizou tudo e providenciou um tour completamente inesquecível!

E como nosso orçamento era baixo se comparado com os preços das empresas de turismo, e com a baixa temporada, ele mesmo foi nosso guia e nosso motorista! 🙂 Cara gente fina demais!!

Na manhã de uma 2a feira, partimos de carro para o Parque Nacional Gorkhi Terelj, que fica a cerca de 80km de Ulan Bator.

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A primeira parada foi no meio da estrada, para apreciarmos alguns camelos, águias e corujas, que são criadas por habitantes da cidade e usadas para passeios e fotografias. Apesar de lindos, morremos de pena daqueles bichos presos, apesar de o Heiigi dizer diversas vezes que eles são muito bem tratados.

De lá, seguimos para o Complexo da Estátua Gigante de Genghis Khan, que é composto por um museu sobre a história da Mongólia, um restaurante, lojinhas de suvenirs e uma estátua gigantesca do maior herói do país. A estátua é realmente impressionante e rende belas fotos! Ao comprar o ingresso do museu, você pode também subir até bem próximo da estátua e ter uma bela visão de Genghis Khan e da imensidão que rodeia o complexo.

nomades9Almoçamos por lá, nos divertimos muito tirando diversas fotos vestidos com as roupas tradicionais da época do Império Mongól (que, em breve, você confere no Facebook) e seguimos para o Parque Nacional.

Ao entrar no Parque, paramos em um local que remete às tradições dos mongóis na época das guerras que os transformaram no maior Império do mundo. Com 3 pedras nas mãos, que pegamos no chão, demos três voltas em torno da pequena montanha de pedras, fizemos nossos pedidos e jogamos nossas pedras que agora ficaram lá compondo a paisagem para a eternidade.

Seguimos para a Pedra da Tartaruga e o visual é incrível!! A pedra foi esculpida pela natureza e, realmente, lembra muitíssimo uma tartaruga! Ao redor dela, uma paisagem de tirar o fôlego!

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Continuamos a jornada dentro do imenso parque e paramos no Templo budista de meditação que foi construído lá há 36 anos. Atravessamos a ponte estreita de madeira que leva os visitantes até o templo, subimos a escadaria de 100 degraus e chegamos a um lindo, colorido e super tranquilo templo. Ficamos por lá um bom tempo curtindo a tranquilidade, a paisagem nas alturas do parque, os detalhes tradicionais budistas. Uma beleza!

Então, após relaxarmos por um tempo, era hora de seguirmos para a experiência que mais esperávamos: ir ao encontro da família nômade que nos receberia em sua Ger!

Dali em diante, o Heiigi dirigiu cerca de 1 hora e meia indo cada vez mais longe dentro do parque. Passamos por incontáveis hostels, hotéis e campings dentro do Gorkhi Terelj, para todo tipo de perfil e bolso! A maioria deles possuía quartos que imitavam a estrutura da Ger, mas não era nada daquilo que queríamos!

Depois de fazer muito rali, atravessar florestas e dois rios congelados, enfim chegamos!!

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No caminho, o Heiigi nos explicou que a maioria das famílias nômades mongóis se muda cerca de 6 vezes ao ano, respeitando o movimento e a necessidade dos animais que são criados por eles. A maioria deles cria cavalos, vacas e cabras e são os bichos que definem a hora de partir para uma região com mais plantas, mais água, mais ou menos sombra… enfim! Encantador!

A família que nos recebeu estava instalada em seu local de inverno e ali, além das Gers, que são desmontáveis e seguem com as famílias, também havia uma estrutura fixa para abrigar os animais: uma espécie de celeiro para protegê-los do extremo frio da Mongólia.

Logo ao chegarmos fomos recebidos de forma muito calorosa e com dois ítens super tradicionais: o chá com leite e uns deliciosos pãezinhos fritos. Com a tradução do Heiigi, conversamos sobre os costumes e características de nossa vida no Brasil e da vida deles naquele lindo lugar.

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As Gers são casas redondas, feitas com peças dobráveis de madeira e cobertas por diversas camadas de pele de animal. Ao centro, fica o fogão a lenha usado para cozinhas as refeições e para esquentar as pessoas durante os dias e noites muito frios.

Ao lado esquerdo da porta, ficam os visitantes e somente ali eles podem ficar, a não ser que sejam convidados para sentar ao fundo da Ger! À direita da porta, fica a área dos moradores e é ali que dormem e que preparam as refeições.

Basicamente, dentro da Ger deles havia duas camas, um sofá, uma mesinha, dois baús e o fogão. Tudo junto, em um aconchegante e super simples ambiente. Nunca, de forma alguma, espere luxo e o padrão de higiene de seu apartamento em cidade grande. Ali tudo é muito simples, a água fica armazenada em galões próximos à porta, a energia elétrica vem de placas solares e é usada para acender alguns leds durante a noite, para um telefone que faz ligações com um péssimo sinal (vimos eles usando duas vezes) e uma TV que não foi ligada nenhuma vez enquanto estávamos lá.

Conversamos bastante, pedimos autorização para fotografá-los enquanto preparavam nosso delicioso jantar super tradicional: o churrasco mongól!

Trata-se de uma refeição feita da seguinte forma: Pedras lisas que, normalmente, são coletadas por eles nos rios, são colocadas dentro do fogão a lenha para ficarem bem quentes. Em uma panela, eles intercalam as pedras vermelhas de tão quentes com pedaços de carne, legumes, cebola, alho, mais pedras, mais carne, mais legumes e etc. Finalizam com água quente, temperos e deixam cozinhando no fogão a lenha por cerca de 1h30.

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Depois de pronto, o churrasco é colocado em uma travessa e todos comem juntos, com a mão! Você pega um pedaço de carne aqui, depois um pedaço de legume ali.. e vai se esbaldando naquela tradicional refeição!

Antes de iniciar o jantar, no entanto, eles nos orientaram a pegar uma das pedras que ainda estavam muito quentes e rolá-las nas mãos, para ativar os pontos do corpo e ajudar na cura de males… Todos fizemos isso e, então, jantamos juntos. Muito bacana!

Na hora de dormir, eles haviam preparado nossas camas em uma Ger ao lado da deles e nos orientaram a manter o fogo aceso de duas em duas horas durante a noite, para não congelarmos. E lá fomos nós!

Antes de dormirmos, ficamos mais uma hora fora da Ger, naquele frio de lascar, contemplando o céu mais estrelado que já vi. Uma visão impressionante, inesquecível e que fez valer cada centavo do tour e mais… fez valer toda a viagem!! Nunca vou me esquecer daquela imensidão azul escura completamente cravejada de brilhos de todos os tamanhos. Uma visão que nos aproxima de Deus, da natureza, das energias fundamentais que nos mantêm vivos nesse mundão lindo.

Confesso que não foi uma noite de sono fácil. Acordar de duas em duas horas já é difícil, dormir em camas duras também, mas aguentar o frio intenso que rola quando o fogo tá apagando…. minha nossa!! É muito frio, muito mesmo!!

Programamos nosso despertador para às 6h da matina para acompanhar o nascer do sol. Outro espetáculo da natureza que nunca mais vamos esquecer! O céu em tons de azul escuro e azul claro sendo pintado pelo laranja do sol, e a lua crescente ainda lá, bonitona no céu.

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Depois do tradicional café da manhã, com o chá com leite, os pãezinhos fritos e o resto do churrasco do dia anterior (carne fria sim! nham nham!), estávamos bem alimentados e preparados para o passeio a cavalo!

Os cavalos são selvagens, vivem soltos, ficam próximos aos homens somente por opção própria. Aquela seria minha primeira experiência andando a cavalo, mas o Will já tinha um vasto currículo no assunto.

Pra minha sorte, além de ser super baixinhos (hahahaha), os cavalos da Mongólia são, em sua maioria, dóceis.

E partimos junto com o pai da família para um passeio absolutamente inesquecível pelas paisagens inóspitas do parque. Foram duas horas de completo encantamento e visões que nunca mais vamos esquecer. Eu perdi a conta de quantas vezes tive vontade de chorar ao constatar a experiência que estava vivendo ali.

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No meio do caminho, paramos para que os cavalos pudessem descansar e beber água. Então, quebramos o gelo do lago congelado com os pés e eles se esbaldaram na água geladíssima que estava por baixo da camada congelada. Que visão linda!

Como o nosso guia não nos acompanhou no passeio, foram horas de um delicioso silêncio e nossa comunicação com o pai da família era na base da mímica, dos sorrisos, dos gestos.

De volta às Gers, e com muito muito muito frio, havia uma deliciosa sopa de arroz e carne seca nos esperando, quentinha, para repor as energias depois do maravilhoso passeio.

E por lá ficamos mais algumas horas, admirando a natureza, os rebanhos que passavam soltos, o ritmo desacelerado, a vida simples e completa das famílias nômades.

Não há banheiro, pois as necessidades são feitas na natureza. Não há o sentimento de “me falta alguma coisa”, pois eles vivem em harmonia com a natureza e tiram dela somente o que necessitam para viver com saúde. Não há stress, pressa, já que eles acompanham o ritmo dos bichos e das estações do ano.

É lindo de se ver. É emocionante pensar que ainda há tanta gente nesse mundo que vive com tão pouco, mas que não sente falta das tantas coisas que insistimos em acumular, sejam bem materiais, preocupações, responsabilidades, manias.

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Foi uma das experiências mais intensas de nossa vida. E, ao fim do dia, saímos de lá gratos pela receptividade da família, pelos momentos que passamos juntos, as refeições típicas e a energia maravilhosa que nos foi passada para seguirmos em frente na volta ao mundo!

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