Trem da Morte – da Bolívia ao Brasil

Data: 19 julho, 2016

Categoria: Mochilão

Depois de cruzar a Rússia, Sibéria, Mongólia e China dentro de trens que, muitas vezes, eram de qualidade bastante duvidosa, o termo “Trem da Morte” não assusta nem um pouco, mas desperta, no mínimo, curiosidade!

Quando estávamos prestes a partir de Sucre para Santa Cruz de la Sierra, de onde sairia nosso trem para a fronteira com o Brasil, comecei a pesquisar a respeito dos horários e preços do trem e, claro, sobre o motivo de ele ter esse apelido tão convidativo.

A boa notícia é que o apelido não está relacionado com a possível má qualidade dos trens, da linha férrea, ou do percurso. Como explicação para o nome, ouvimos muitas histórias distintas, com características em comum:

– Nosso guia no Pantanal explicou que, durante a Guerra do Paraguai, não havia no Brasil boa estrutura para atender aos feridos de guerra e os doentes decorrentes de um surto de cólera. Por isso, eles eram colocados nos trens e mandados para a Bolívia e a maioria deles chegava morta a Santa Cruz. Daí o apelido! 😉

– No Wikipedia, a informação compartilhada fala a respeito de uma epidemia de malária entre os funcionários que trabalhavam na construção da linha férrea, que matou milhares de trabalhadores;

– Em blogs de viagem, encontramos todo tipo de conteúdo! Há quem diga que o trem transportou leprosos e corpos das vítimas de uma grave epidemia de febre amarela ocorrida na região de Santa Cruz. Há quem mencione outras doenças, assassinatos por gangues bolivianas e feridos de guerra.

Independente de qual for a verdadeira história, todos concordam que a má qualidade dos trens não é o motivo do nome e, para combater esse anti-Marketing, a empresa Ferroviária Oriental costuma intitulá-lo de Trem da Vida.

Pois bem! Durante a pesquisa, no próprio site da empresa ferroviária (clique aqui), encontramos essa tabela que colei abaixo, com os tipos de trem, itinerários e preços para fazer o percurso de Santa Cruz até Puerto Quijarro. Pra te ajudar a relembrar: Lunes (2a feira), Martes (3a feira), Miércoles (4a feira), Jueves (5a feira), Viernes (6a feira).

Itinerario_tremdamorteNote que há uma considerável diferença entre os preços do Ferrobús (235 bolivianos, ou 117 reais) e do Expresso Oriental (100 bolivianos, ou 50 reais). No Ferrobús, os passageiros possuem camas tipo beliche e alimentação inclusa na tarifa, enquanto o Expresso Oriental possui poltronas reclináveis e nenhum alimentação inclusa.

Como chegamos a Santa Cruz de la Sierra numa 3a feira, dia em que sai o Ferrobús, fizemos nossas contas e concluímos que valeria mais a pena passar uma noite na cidade e seguir viagem no dia seguinte no Expresso Oriental, principalmente porque a tarifa do Expresso Oriental estava 70 bolivianos, o que aumentada ainda mais a diferença de preço entre os trens.

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Se decidíssemos por seguir no Ferrobús, teríamos que esperar 8 horas na estação pra sair às 18h do mesmo dia e investiríamos 470 bolivianos. Optando pelo Expresso Oriental, investimos 140 bolivianos nos tickets de trem e 120 bolivianos em uma diária em um hotel bem bacaninha na frente do Terminal de Trem. Somando a esse valor a alimentação de um dia inteiro, gastamos o total de 320 bolivianos! 🙂

Assim, meia hora antes da partida de nosso trem, estávamos na Estação para embarcar. Passamos pelo fiscal com nossos mochilões e não precisamos de revista, pois se tratavam de bagagens consideradas pequenas.

Embarcamos, conseguimos colocar nossos mochilões no bagageiro superior, gostamos das poltronas macias e com boa reclinação (mais confortáveis que alguns trens locais na Europa, que a 3a classe na Rússia e mil vezes melhores que a 3a classe na China). E depois de tantas viagens pela Bolívia sem qualquer estrutura dentro dos ônibus, gostamos bastante da existência de TVs ligadas que poderiam passar filmes durante a viagem de 18 horas! 🙂

Logo o comissário de bordo que atenderia nosso vagão se apresentou e decidiu colocar um DVD com músicas brasileiras em nossa homenagem (só música brega! ahhahahahaha!). Assim que o trem começou a andar, as músicas foram substituídas por filmes.

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Reginaldo Rossi encantando os passageiros… hahahaha!

Foram quatro filmes seguidos que ajudaram bastante a passar o tempo e terminaram lá pelas 20h. E como estávamos escolados de viagens longas, também tínhamos bolachas, sanduíches e água, pra ajudar a passar as horas e também evitar a compra das coisas vendidas pelos moleques e moças nas paradas do trem, afinal eu tinha acabado de me recuperar de uma intoxicação alimentar daquelas em Sucre e não tava pronta pra outra aventura gastronômica! 🙂 Basicamente, eles vendem empanadas, espeto de frango e carne, sopa, arroz, chá e refrigerante… dá pra encarar!

Quando caiu o dia, o balanço constante do trem fez bater aquele sono gostoso e abrimos nossos sacos de dormir pra usar como coberta e não passar frio. O frio não se compara ao que passamos no ônibus para o Uyuni (leia aqui), mas vai te incomodar bastante se você não tiver uma coberta ou bom casaco.

Invariavelmente, eu precisei fazer xixi e me surpreendi com um banheiro até que limpo, espaçoso, com papel higiênico, papel toalha e sabonete… pasmem!

A viagem é tranquila. Há algumas paradas no caminho, o trem balança um pouco, mas dá pra dormir legal e aguentar a viagem numa boa.

Às 7h30 da manhã chegamos à estação de Puerto Quijarro e como ela é a última estação da linha, basta que você fique ligado no movimento dos passageiros pra desembarcar também. Se tiver dúvidas, pergunte pra algum funcionário. Não tem mistério!

Assim que desembarcamos, muita gente surge pra oferecer serviço de táxi, hospedagem e câmbio. Precisávamos de um táxi para a fronteira com o Brasil, um trajeto de cerca de 10 minutos que a maioria dos passageiros faz a partir daquela estação e, dentro da estação, os motoristas ofereciam 20 bolivianos pelo percurso enquanto do lado de fora fechamos por 10 bolivianos. Fique atento! 😉

Chegamos à fronteira, entramos na fila que já tinha umas 60 pessoas e esperamos até às 9h00 para começar o atendimento (enquanto na Rússia, fizemos o processo de imigração às 4h da manhã, na maior nevasca!). Passamos a fronteira sem problemas e sem precisar pagar taxas (fique atento a isso, pois na fronteira entre Bolívia e Chile é preciso pagar 15 bolivianos para sair do país. Aaff) e entramos felizes no nosso país.

A partir da fronteira, é possível pegar um táxi que rodará cerca de 20km para te deixar no centro de Corumbá (e aí a brincadeira vai ficar cara), ou pegar o ônibus de linha que passa em um ponto a cerca de 20 passos da fronteira e que custa 3,50 reais.

Descemos no ponto final do ônibus, dentro de um terminal urbano e lá pedimos informação de como chegar no Terminal Rodoviário da cidade. Pegamos o ônibus Cristo Redentor e depois de 15 minutos, descemos na rua da rodoviária.

A partir de Corumbá, é possível ir de ônibus para Bonito, para o Pantanal, Campo Grande, São Paulo ou Rio de Janeiro. Os horários são meio limitados, então a concorrência pelas passagens é grande. Pode ser difícil conseguir passagem para o mesmo dia. 😉

Pesquisamos os preços na rodoviária e nas agências de turismo das redondezas (são duas, basicamente. hehehe) e decidimos que a melhor opção era irmos para o Pantanal, já que Bonito, nosso plano A, era um destino muito caro para o nosso orçamento e, além disso, estava meio frio e chovendo, então não daria pra nadar nas águas transparentes de Bonito (a parte mais bacana da viagem para lá).

Fechamos um pacote para o Pantanal que depois nos deixaria em Campo Grande e, de lá, teríamos mais opções de itinerários para seguir viagem.

E a trip para o Pantanal, tema do próximo post, foi muito bacana, mas cheia de aprendizados que vamos compartilhar com vocês. 🙂

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